Nasce profundo,
discreto
e paciente,
o olho d'água.
Nasce todo dia,
sem pressa de ser rio,
sem pretensão de correnteza.
O chão vai abrindo alas.
De mansinho,
e já se tem
um olho-d'água-córrego.
Então, dois homens.
Um deles foge,
o outro busca;
um deles nada diz,
o outro fica calado.
Antes da palavra-ponte,
estudam-se furtivos.
O olho-d'água-córrego
segue fluindo.
Cada homem,
mirando(-se) (n)a água,
enxerga o outro.
Olhar para si
é conhecer o outro.
Conhecer o outro
é saber de si.
Para onde quer que olhem,
olham para si -
que é olhar para o outro.
Pegam os cavalos.
Seguem seus caminhos
o olho-d'água-córrego,
o homem
e o outro homem.
O olho-d'água-córrego
os abençoa
e marca a simetria deles.